{"id":101662,"date":"2026-04-19T09:27:03","date_gmt":"2026-04-19T12:27:03","guid":{"rendered":"https:\/\/jnnoticias.com.br\/?p=101662"},"modified":"2026-04-19T09:27:03","modified_gmt":"2026-04-19T12:27:03","slug":"cacique-indigena-usa-literatura-para-exaltar-povos-originarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jnnoticias.com.br\/?p=101662","title":{"rendered":"Cacique ind\u00edgena usa literatura para exaltar povos origin\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>A literatura para muitos \u00e9 entretenimento. Para o cacique Juvenal Payay\u00e1, escritor, romancista e poeta, ela \u00e9 uma ferramenta de cura e reconhecimento.\u00a0No pa\u00eds onde a hist\u00f3ria oficial por vezes tentou apagar a presen\u00e7a dos povos origin\u00e1rios, a obra de uma das principais lideran\u00e7as ind\u00edgenas da Bahia surge como um grito de presen\u00e7a. Para ele, a escrita n\u00e3o \u00e9 apenas est\u00e9tica: \u00e9 um ato pol\u00edtico de resist\u00eancia, que auxilia os povos ind\u00edgenas a recuperarem espa\u00e7os que foram silenciados pela hist\u00f3ria:<\/p>\n<blockquote>\n<p>&#8220;Eu acho a literatura a outra grande ferramenta que os povos ind\u00edgenas colocaram realmente a m\u00e3o e se apossaram dela. A literatura ind\u00edgena no Brasil, ela \u00e9 nova, talvez tenha 50 anos&#8230; foi em 1980 e pouco que saiu o primeiro livro, n\u00e9, editado pela imprensa, n\u00e9, o primeiro livro escrito por um ind\u00edgena. Apesar de que l\u00e1 bem atr\u00e1s, l\u00e1 bem no in\u00edcio dos tempos, tem dois ou tr\u00eas livros que n\u00e3o se conhece, mas sabe-se que algum ind\u00edgena escreveu. Ent\u00e3o, na verdade, a literatura, ela tem ajudado a gente n\u00e3o s\u00f3 a buscar documentos e incorpor\u00e1-los na nossa vis\u00e3o, como agu\u00e7ar o nosso pensamento para dizer: olha, n\u00f3s existimos, n\u00f3s estamos aqui e n\u00f3s vamos contar a nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Eu acho esse o ponto fundamental: n\u00f3s contarmos a nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria&#8221;, conta.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Diferente da tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria ocidental focada no indiv\u00edduo, a literatura ind\u00edgena de Juvenal Payay\u00e1 \u00e9 coletiva, abordando temas como ancestralidade, educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e resist\u00eancia cultural. O cacique, que vive na regi\u00e3o da Chapada Diamantina, faz da poesia um solo f\u00e9rtil para a preserva\u00e7\u00e3o da identidade do seu povo. O escritor tamb\u00e9m defende que o uso da l\u00edngua e das refer\u00eancias ancestrais ajudam a desconstruir a imagem estereotipada dos ind\u00edgenas:<\/p>\n<blockquote>\n<p>&#8220;E no meu poema, por exemplo, eu gosto muito de trazer isso. Eu gosto muito de trazer essas quest\u00f5es de dizer, por exemplo: olha, voc\u00ea tirou o meu direito de ser, voc\u00ea tirou meu direito de ter, certo? Voc\u00ea tirou o meu direito de reproduzir&#8230; me tiraram esse direito e tiraram o direito da minha fala. Ent\u00e3o buscar reconstruir tudo isso e muito mais \u00e9 a luta dos Payay\u00e1, \u00e9 a luta do cacique, \u00e9 a luta do paj\u00e9, \u00e9 a luta daquele povo que ainda sonha com uma conviv\u00eancia harm\u00f4nica. Ent\u00e3o o povo ind\u00edgena, at\u00e9 hoje, at\u00e9 o momento, gra\u00e7as a Deus, vem lutando. E no nosso discurso, que eu chamo a literatura ind\u00edgena como discurso ind\u00edgena&#8230; algu\u00e9m vai ouvir isso e dizer: esse cara \u00e9 louco&#8230; N\u00e3o! Ent\u00e3o, na nossa total consci\u00eancia do que n\u00f3s queremos, \u00e9 que nos permitam viver, nos deixem viver da forma que a gente quer dentro do planeta Terra. Zelamos por ela e assim \u00e9 a nossa marcha&#8217;.<\/p>\n<p>&#8216;Piedade, m\u00e3e, majestosa natureza \/ Suspendei o gume da tua g\u00e9lida espada \/ Eis que j\u00e1 tremula minha alva bandeira \/ Implorando o fim dessa infame derrocada \/ Arrependei na tua tenebrosa vingan\u00e7a \/ Que vejo no vento, no vulc\u00e3o fumegante \/ Puni-me, mas deixai um par de crian\u00e7as \/ No p\u00f3 do imprudente, regar a semente \/ Deixai viva na lagoa a suave neblina \/ O peixe no oceano, a cabra mont\u00eas \/ A flor da orqu\u00eddea, o \u00edndio terena \/ Fazei um novo mundo parecendo poesia \/ Sem armas, sem bolsa e sem valor \/ Mas com o valor da vida de quem a criou&#8221;, fala e declama.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Entre versos e milit\u00e2ncia, o l\u00edder do povo Payay\u00e1 utiliza a escrita para demarcar territ\u00f3rios simb\u00f3licos e garantir que a mem\u00f3ria ind\u00edgena da Bahia n\u00e3o seja esquecida. Ao publicar suas obras, ele n\u00e3o apenas compartilha hist\u00f3rias, mas estabelece uma ferramenta de afirma\u00e7\u00e3o. Mas, apesar dos avan\u00e7os, o cacique lamenta que ainda h\u00e1 muitos obst\u00e1culos para os escritores ind\u00edgenas superarem:<\/p>\n<blockquote>\n<p>&#8220;A dificuldade que voc\u00ea percebe da pessoa quando sabe que \u00e9 um ind\u00edgena que escreve, parece que ele imagina que eu estou escrevendo aqui apenas aquela hist\u00f3ria l\u00e1 da minha av\u00f3, t\u00e1 entendendo? E na verdade isso eu sinto. Eu n\u00e3o vou dizer que seja preconceito, eu ainda n\u00e3o notei isso, mas noto na verdade uma certa indiferen\u00e7a, isso que eu diria quanto \u00e0 literatura ind\u00edgena. Eu acho que, de forma geral, os escritores ind\u00edgenas est\u00e3o avan\u00e7ando muito. Tem alguns escritores que a gente tira o chap\u00e9u. Alguns est\u00e3o realmente acontecendo, mas n\u00e3o \u00e9 a maioria, n\u00e3o. E esses que n\u00e3o acontecem, quase todos eu li, n\u00e9? Lamento por quem n\u00e3o est\u00e1 lendo. \u00c9 uma literatura muito, digamos assim, esclarecedora. Mas a gente est\u00e1 a\u00ed, lutando para que nosso livro chegue, na verdade, \u00e0 imprensa, chegue at\u00e9 aqui para que a gente possa dizer o que tem no nosso livro, o que \u00e9 que eu escrevi, sobre o qu\u00ea, qual \u00e9 o objetivo dele e tudo, n\u00e9? E esperar que alguns alunos, que as pessoas leiam em geral&#8221;, completa.<\/p>\n<\/blockquote><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A literatura para muitos \u00e9 entretenimento. 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