Raras vezes um mesmo domingo eleitoral concentra, em continentes distintos, dois processos que, tomados em conjunto, oferecem uma leitura tão reveladora sobre os caminhos e os descaminhos da democracia liberal contemporânea: de um lado, a Hungria devolvendo às urnas o poder de destituir um governante que havia feito do enfraquecimento democrático uma política de Estado; de outro, o Peru realizando mais uma eleição em um país onde a instabilidade institucional se tornou o único traço de regularidade do calendário político. Os dois processos iluminam, por contrastes reveladores, questões que os estudiosos da ciência política há décadas debatem: o que sustenta uma democracia saudável? O que a corrói? E em que condições os eleitores conseguem exercer o poder de recusa que o sufrágio universal lhes confere, mesmo diante de sistemas que foram progressivamente blindados contra essa possibilidade?
Na Hungria, a resposta foi dada de forma inequívoca: apesar dos anos de reformas institucionais que tornaram o sistema eleitoral crescentemente favorável ao Fidesz, do controle exercido pelo Orbán sobre a maior parte da mídia e do uso sistemático dos recursos do Estado para fins eleitorais, o eleitorado húngaro compareceu em número recorde e votou por uma mudança que muitos analistas consideravam improvável. No Peru, o processo apresenta outras nuances: Keiko Fujimori lidera uma contagem marcada por problemas técnicos e acusações de irregularidades, em um país cuja fragmentação política extrema — com 35 candidatos disputando a presidência no primeiro turno — é ela mesma sintoma de uma crise de representação que nenhuma eleição, por si só, tem condição de resolver. Os dois episódios, lidos em conjunto, lembram que a democracia não é um estado permanente de equilíbrio, mas um processo que exige manutenção constante, vigilância cívica e disposição de cada geração para defendê-la com o único instrumento que lhe é próprio: o voto.
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Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe Portal INFOCO
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