BAHIA DIANTE DAS URNAS: ESCÂNDALOS, INVESTIGAÇÕES E A RESPONSABILIDADE DO ELEITOR NAS ELEIÇÕES 2026

BAHIA DIANTE DAS URNAS: ESCÂNDALOS, INVESTIGAÇÕES E A RESPONSABILIDADE DO ELEITOR NAS ELEIÇÕES 2026
Uma reportagem especial sobre políticos investigados, condenações, operações policiais e o desafio de separar fatos, acusações e propaganda na escolha dos representantes
Por Josenilson Almeida — Jornalista | JN Notícias — Feira de Santana, Bahia
A política brasileira, especialmente em períodos eleitorais, costuma ser marcada por promessas, discursos, alianças, disputas de poder e, infelizmente, também por episódios que colocam em dúvida a relação entre alguns agentes públicos, empresários e estruturas de poder. Na Bahia, investigações recentes e processos judiciais envolvendo políticos e administrações públicas voltaram a colocar no centro do debate uma pergunta que não deveria desaparecer depois das eleições: quem está sendo escolhido para administrar o dinheiro público e representar os interesses da população?
Esta reportagem não pretende transformar investigação em condenação, nem condenação em espetáculo. O objetivo jornalístico é apresentar fatos documentados por instituições públicas, indicar a situação processual conhecida de cada caso e permitir que o cidadão tenha informação suficiente para acompanhar a vida pública de seus representantes. Em uma democracia, acusação não equivale a culpa, assim como mandato eletivo não deve significar imunidade contra investigação.
O momento é particularmente importante porque as Eleições 2026 estão próximas, e a Bahia possui uma das maiores disputas políticas do país. O eleitor escolherá presidente, governador, senadores, deputados federais e deputados estaduais. Cada voto representa uma parcela da responsabilidade pela formação dos poderes Executivo e Legislativo. Por isso, mais importante do que acreditar cegamente em discursos de candidatos é verificar histórico, patrimônio declarado, prestação de contas, processos, propostas e comportamento público.
BINHO GALINHA: O CASO QUE CHEGOU AO CENTRO DO DEBATE ELEITORAL
Um dos casos mais graves e diretamente relacionados às eleições baianas em 2026 envolve o deputado estadual Kléber Cristian Escolano de Almeida, conhecido como Binho Galinha, do Avante.
Segundo o Ministério Público Federal, o parlamentar é investigado em desdobramentos da Operação El Patrón, que apurou uma organização criminosa com suspeitas relacionadas a lavagem de dinheiro, exploração do jogo do bicho, agiotagem, comércio ilegal de armas e outros crimes.
O caso ganhou dimensão eleitoral porque, em 14 de setembro de 2026, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia acolheu, por unanimidade, ação do Ministério Público Eleitoral e indeferiu o registro da candidatura de Binho Galinha à reeleição. O processo é o nº 0601122-44.2026.6.05.0000.
É importante fazer uma distinção jurídica: Binho Galinha não foi condenado definitivamente por todos os crimes investigados pela Operação El Patrón. O MP Eleitoral, entretanto, sustentou que as provas reunidas em quatro ações penais indicariam posição de liderança e comando de uma organização criminosa.
Em uma das ações decorrentes da Operação El Patrón, o deputado foi condenado a 36 anos e 9 meses de prisão por crimes relacionados à posse ilegal de armas de fogo e munições, inclusive de uso restrito. O MPF informou ainda que ele se encontrava preso preventivamente em decorrência de novos desdobramentos investigados pela Operação Estado Anômico.
Outro dado relevante para o eleitor é que, em 2026, Binho Galinha declarou aproximadamente R$ 1 milhão em patrimônio, enquanto a Justiça havia determinado, no âmbito da Operação Estado Anômico, o bloqueio de até R$ 9 milhões em bens de investigados.
O caso demonstra como o eleitor precisa compreender a diferença entre patrimônio declarado, patrimônio bloqueado, investigação, denúncia e condenação, pois cada instituto possui consequências jurídicas diferentes.
OVERCLЕAN: EMENDAS, CONTRATOS E UMA INVESTIGAÇÃO QUE CHEGOU A PARLAMENTARES BAIANOS
Outra investigação de grande repercussão é a Operação Overclean, conduzida pela Polícia Federal com participação de outros órgãos de controle.
A investigação apura suspeitas de fraudes em licitações, corrupção, desvio de recursos públicos, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Segundo informações divulgadas pela Polícia Federal e pela imprensa, as investigações abrangem contratos e recursos públicos em diferentes localidades.
Em agosto de 2026, a Polícia Federal informou o indiciamento de 25 pessoas no âmbito da operação, entre elas empresários e ex-servidores públicos. As investigações relacionadas às emendas parlamentares de Dal Barreto (União Brasil-BA), Félix Mendonça Júnior (PDT-BA), Elmar Nascimento (União Brasil-BA) e Vicentinho Júnior continuavam em andamento.
Aqui está uma das principais advertências desta reportagem: os parlamentares citados nesse núcleo investigativo não devem ser apresentados jornalisticamente como condenados por corrupção apenas porque seus nomes aparecem em uma investigação.
Segundo informações divulgadas pela imprensa, os parlamentares negam irregularidades na destinação de emendas.
O caso de Elmar Nascimento possui tramitação no Supremo Tribunal Federal em razão do foro por prerrogativa de função. Reportagens sobre a investigação registraram questionamentos da defesa sobre a forma como a apuração chegou ao parlamentar e mencionaram recursos de aproximadamente R$ 40 milhões em emendas destinados a obras em Campo Formoso.
A defesa do deputado nega irregularidades e questiona a legalidade de determinados elementos da investigação.
O caso de Félix Mendonça Júnior também merece acompanhamento. Em janeiro de 2026, a Polícia Federal realizou buscas autorizadas pelo STF em endereços relacionados ao deputado no âmbito da Overclean. Na mesma fase, foram determinadas medidas patrimoniais que alcançaram aproximadamente R$ 24 milhões em contas e bens de pessoas físicas e jurídicas investigadas.
O parlamentar afirmou que jamais negociou a execução das emendas, que não indicou empresas e que seu papel teria se limitado à apresentação de emendas destinadas aos municípios.
Quanto a Dal Barreto, investigações da Overclean também permaneciam em andamento. Reportagens apontaram suspeitas envolvendo relações empresariais e contratos públicos, mas o deputado nega qualquer ilícito.
Até que exista decisão judicial definitiva, é dever do jornalismo informar que se trata de investigação, e não declarar como criminoso quem ainda exerce seu direito constitucional à defesa.
ACM NETO: PEDIDO DE BUSCA DA PF FOI NEGADO PELO STF
Outro episódio que entrou no debate eleitoral de 2026 envolve Antônio Carlos Magalhães Neto, o ACM Neto, do União Brasil, candidato ao Governo da Bahia.
Em setembro de 2026, a Polícia Federal solicitou autorização para realizar busca e apreensão contra ACM Neto no contexto da décima fase da Operação Overclean. Segundo a informação divulgada, o pedido foi negado pelo ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal.
A Polícia Federal investiga possíveis irregularidades em contratações realizadas em Belo Horizonte. A corporação informou que pelo menos três contratos analisados ultrapassam R$ 80 milhões.
É fundamental registrar que ACM Neto não foi alvo da busca e apreensão solicitada pela PF porque a medida não foi autorizada pelo STF.
O político negou relação com os fatos investigados.
Portanto, o tratamento jornalístico correto é: há uma investigação na qual o nome de ACM Neto foi relacionado a elementos sob apuração; houve pedido de busca, mas não houve autorização judicial para a diligência contra ele. Isso não equivale a condenação por corrupção.
NOVOS CAPÍTULOS: JERÔNIMO RODRIGUES, RUI COSTA E OTTO ALENCAR NO RADAR DO DEBATE PÚBLICO BAIANO
A inclusão dos nomes do governador Jerônimo Rodrigues, do ex-governador e ministro Rui Costa e do senador Otto Alencar exige ainda mais cuidado jornalístico.
Nenhum deles deve ser classificado nesta reportagem como “corrupto” sem condenação ou acusação formal que sustente essa afirmação.
O que existe são investigações, processos eleitorais, questionamentos administrativos e fatos envolvendo pessoas ou estruturas relacionadas a esses agentes políticos, situações que precisam ser acompanhadas pela sociedade.
JERÔNIMO RODRIGUES: INVESTIGAÇÕES ENVOLVENDO INTEGRANTES DO GOVERNO E O DEBATE SOBRE RESPONSABILIDADE POLÍTICA
O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), também precisa ser mencionado nesta análise, mas com o necessário cuidado jornalístico: não é correto afirmar que o governador seja investigado ou condenado por corrupção apenas em razão de investigações envolvendo integrantes de seu governo.
Um fato documentado em 2026 envolve o secretário estadual Eduardo Mendonça Sodré Martins, cujo nome aparece como investigado no Inquérito 5050 do Supremo Tribunal Federal. O cadastro público do STF registra Eduardo Sodré entre os investigados, juntamente com outros nomes, em investigação penal relatada pelo ministro André Mendonça.
Isso não significa que Jerônimo Rodrigues seja investigado no mesmo inquérito.
A distinção é essencial.
O governador foi questionado publicamente sobre a permanência de integrante de sua equipe diante de investigação, e a discussão passou a envolver a responsabilidade política e administrativa do chefe do Executivo na escolha e manutenção de integrantes de seu governo.
Outra situação envolvendo diretamente Jerônimo Rodrigues ocorreu na esfera eleitoral.
O Ministério Público Eleitoral ajuizou representação contra Jerônimo Rodrigues, Rui Costa e Jaques Wagner por suposta propaganda eleitoral antecipada relacionada a um evento realizado em Itabuna. O processo tramita sob o nº 0600752-65.2026.6.05.0000.
Segundo a Procuradoria Regional Eleitoral, declarações realizadas durante o evento teriam ultrapassado os limites da pré-campanha. O vídeo foi posteriormente publicado no canal oficial de Jerônimo Rodrigues.
Esse episódio é de natureza eleitoral, e não uma acusação de corrupção.
Essa diferença precisa ser explicitada porque, em período eleitoral, fatos distintos costumam ser misturados nas redes sociais.
O cidadão deve saber exatamente qual é o fato, qual é a acusação e qual é o estágio processual.
Jerônimo Rodrigues permanece governador da Bahia e candidato à reeleição em 2026.
RUI COSTA: O CASO DOS RESPIRADORES E A DISPUTA SOBRE RESPONSABILIDADES
O ex-governador da Bahia e atual ministro da Casa Civil Rui Costa (PT) possui um dos casos mais relevantes para o debate sobre gestão de recursos públicos no Estado.
A questão envolve a compra de respiradores durante a pandemia de Covid-19, realizada pelo Consórcio Nordeste, quando Rui Costa era governador da Bahia e presidente do consórcio.
O Consórcio realizou pagamento antecipado de aproximadamente R$ 48,7 milhões à empresa Hempcare para aquisição de 300 respiradores, mas os equipamentos não foram entregues. O episódio passou a ser objeto de investigação policial e judicial.
Em julho de 2026, auditoria do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) recomendou a rejeição das contas relativas à gestão do Consórcio Nordeste em 2020 e apontou o que classificou como “erros administrativos grosseiros” na condução da operação.
O processo, contudo, encontrava-se em fase de instrução. A auditoria não representava, naquele momento, uma decisão definitiva sobre as contas.
Em junho de 2026, a Procuradoria-Geral da República pediu que o caso dos respiradores retornasse ao Supremo Tribunal Federal. A investigação envolve a compra de 300 ventiladores por R$ 48,7 milhões que não foram entregues.
A Polícia Federal já havia realizado operações relacionadas ao caso.
É importante registrar também a posição de Rui Costa.
Em setembro de 2026, durante sabatina, o candidato ao Senado afirmou que havia determinado investigação do caso e que pessoas apontadas como envolvidas haviam sido presas.
Portanto, a formulação jornalisticamente correta é:
Rui Costa é alvo de investigação relacionada à compra dos respiradores do Consórcio Nordeste; houve auditoria do TCE-BA recomendando rejeição das contas relativas ao episódio e a PGR pediu a retomada do caso no STF. Isso não equivale, por si só, a uma condenação criminal definitiva por corrupção.
Essa distinção é fundamental para preservar o direito de defesa e, ao mesmo tempo, permitir que o eleitor acompanhe o andamento do caso.
OTTO ALENCAR: BANCO MASTER, VIAGENS E O NOME DO SENADOR NO DEBATE PÚBLICO
O senador baiano Otto Alencar (PSD-BA) também passou a aparecer no noticiário relacionado às investigações envolvendo o Banco Master.
Mais uma vez, a precisão é indispensável:
as informações consultadas não permitem afirmar que Otto Alencar tenha sido condenado por corrupção no caso Banco Master.
Em abril de 2026, levantamento baseado em documentos da Receita Federal mostrou que uma empresa ligada ao filho do senador, Otto Alencar Filho, recebeu aproximadamente R$ 12 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025.
Otto Alencar Filho afirmou que os serviços foram devidamente faturados, contabilizados e tributados e que a empresa cumpriu a legislação.
A relação empresarial do filho não permite atribuir automaticamente ao senador responsabilidade pelas atividades da empresa.
Outro episódio envolve viagens em aeronaves relacionadas à empresa Prime Aviation, que teve Daniel Vorcaro entre seus sócios.
Reportagens também mencionaram Otto Alencar em relação a advogado ligado ao PSD baiano e a um possível encontro com Daniel Vorcaro.
Em setembro de 2026, após a divulgação de áudio em que seu nome foi mencionado, Otto Alencar confirmou sua relação profissional com o advogado Ciro Soares, mas negou ter sido abordado sobre encontro com Vorcaro e negou contato com o banqueiro.
Portanto:
Otto Alencar aparece no contexto jornalístico de fatos relacionados ao Banco Master e a pessoas de seu círculo político ou familiar, mas isso não autoriza afirmar que o senador tenha cometido corrupção sem acusação formal ou condenação que sustente tal afirmação.
OTTO ALENCAR FILHO: R$ 12 MILHÕES E A DISPUTA SOBRE EMENDAS
O caso envolvendo Otto Alencar Filho merece capítulo próprio porque ele foi deputado federal e atualmente exerce o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
Além dos pagamentos de aproximadamente R$ 12 milhões do Banco Master para empresa da qual participa, outro episódio envolveu recursos de emendas parlamentares.
Em maio de 2026, o Superior Tribunal de Justiça determinou a suspensão de alterações, liberações ou pagamentos relativos a aproximadamente R$ 40,2 milhões em emendas parlamentares de 2026 originalmente destinadas por Otto Alencar Filho quando deputado.
A disputa surgiu após sua saída da Câmara dos Deputados para assumir o cargo no TCE-BA. A decisão judicial suspendeu o remanejamento dos recursos enquanto a controvérsia era analisada.
Esse episódio também não deve ser apresentado como prova de corrupção. Trata-se de uma disputa judicial relacionada à destinação e ao gerenciamento de emendas parlamentares.
O QUE OS CASOS DE JERÔNIMO, RUI COSTA E OTTO ALENCAR ENSINAM AO ELEITOR
Os casos de Jerônimo Rodrigues, Rui Costa e Otto Alencar demonstram por que o eleitor precisa abandonar a lógica de transformar toda notícia negativa em condenação — mas também não deve aceitar que investigações ou processos sejam simplesmente ignorados.
Investigar não é condenar.
Ser citado não é ser culpado.
Ser parente de investigado não significa ser investigado.
Uma auditoria de contas não equivale automaticamente a uma condenação criminal.
Uma representação eleitoral não é uma acusação de corrupção.
Ao mesmo tempo, uma investigação envolvendo dinheiro público merece ser acompanhada até sua conclusão.
Essa é a postura que deve orientar o jornalismo responsável e também o cidadão.
ÉRICO CARDOSO: PREFEITO E VICE DENUNCIADOS POR COAÇÃO ELEITORAL
Outro episódio que merece atenção ocorreu em Érico Cardoso, no interior da Bahia.
O Ministério Público Eleitoral denunciou o prefeito Eraldo Félix da Silva e o vice-prefeito Deivison Mendonça Azevedo por suposta coação eleitoral de servidores públicos.
Segundo o MP Eleitoral, os gestores teriam exigido apoio político sob ameaça de demissão e associado obras públicas à continuidade do grupo no poder.
É importante reforçar: denúncia do Ministério Público não representa condenação.
O caso deverá seguir o devido processo legal, com direito à defesa e decisão judicial.
O episódio, contudo, traz uma discussão que ultrapassa o município: servidor público não deve ser tratado como propriedade política de qualquer grupo.
IBIPITANGA E AS CONTRATAÇÕES TEMPORÁRIAS
Em Ibipitanga, o prefeito Humberto Raimundo Rodrigues de Oliveira, conhecido como Beto, do PT, também esteve no centro de questionamentos envolvendo a administração municipal.
Em 2026, o Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia apontou problemas relacionados a centenas de contratações temporárias realizadas sem procedimento seletivo conforme as regras aplicáveis.
O episódio não deve ser automaticamente classificado como corrupção.
Trata-se de uma questão relacionada à regularidade administrativa e ao cumprimento das regras de contratação pública.
Essa diferença é importante porque nem toda irregularidade administrativa significa necessariamente crime de corrupção.
SERRINHA: R$ 8,8 MILHÕES EM CONTRATO PARA EDUCAÇÃO
Em julho de 2026, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram a Operação Robótica, relacionada a suspeitas de irregularidades em contrato de aproximadamente R$ 8,8 milhões para aquisição de kits de robótica e livros destinados à rede municipal de ensino de Serrinha.
Segundo PF e CGU, os elementos reunidos apontaram possíveis indícios de direcionamento da contratação, simulação de pesquisas de preços, superfaturamento e ausência de entrega de parte dos itens.
O valor estimado do possível superfaturamento chegou a aproximadamente R$ 3,4 milhões, segundo os órgãos federais.
A investigação começou em 2023 e continuava em andamento em 2026.
Mais uma vez, a responsabilidade jornalística exige cuidado: a existência de uma operação policial não significa que todos os envolvidos sejam culpados.
Cabe à investigação identificar responsabilidades individuais e à Justiça decidir sobre eventual responsabilização.
Mas há uma pergunta que não pode ser ignorada:
Quando milhões de reais destinados à educação entram no centro de uma investigação, quem acaba pagando a conta é a população?
GONGOGI E A OPERAÇÃO SEVERUS
Em agosto de 2026, PF e CGU deflagraram a Operação Severus, segunda fase da Operação Pacto Infame, para aprofundar investigações sobre possíveis irregularidades em contratações públicas no município de Gongogi.
Foram cumpridos 33 mandados de busca e apreensão em municípios baianos, incluindo Gongogi, Itabuna, Ilhéus, Dário Meira, Ipiaú, Ibicaraí, Valença e Eunápolis.
Segundo a PF e a CGU, a investigação apura possível atuação de grupo criminoso envolvendo agentes públicos e particulares, com suspeitas de fraudes em licitações, desvio de recursos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro. Também foram mencionados possíveis direcionamentos de licitações, documentos falsos, simulações administrativas e pagamentos por serviços não executados ou parcialmente executados.
A Justiça autorizou medidas patrimoniais de até R$ 2 milhões relacionadas aos investigados.
A investigação permanece sujeita ao contraditório e à individualização das responsabilidades.
FAROESTE: QUANDO A CORRUPÇÃO ATINGE O PRÓPRIO SISTEMA DE JUSTIÇA
Embora a Operação Faroeste não seja exclusivamente política, seus desdobramentos revelam uma questão institucional importante: a corrupção e a venda de influência podem atingir diferentes estruturas do Estado.
Em maio de 2026, o Superior Tribunal de Justiça recebeu parcialmente nova denúncia do Ministério Público Federal contra quatro pessoas investigadas na Operação Faroeste.
A desembargadora Maria do Socorro Barreto Santiago, a juíza Marivalda Almeida Moutinho e os empresários Adailton Maturino dos Santos e Geciane Souza Maturino dos Santos tornaram-se réus por acusações relacionadas a corrupção ativa e passiva e lavagem de capitais.
Segundo o STJ, a investigação trata de possíveis crimes ligados a disputas de terras no oeste da Bahia e suposta venda de decisões judiciais.
Esses casos demonstram que o combate à corrupção não deve ser utilizado apenas como arma eleitoral contra adversários.
O princípio deve valer para todos: governo, oposição, direita, esquerda, centro, partidos tradicionais, partidos novos, empresários, agentes públicos e qualquer pessoa que tenha relação com dinheiro ou decisões do Estado.
O DINHEIRO PÚBLICO NÃO É DINHEIRO DO POLÍTICO
Existe uma confusão perigosa no imaginário político brasileiro: a ideia de que verba pública é uma espécie de patrimônio disponível para grupos políticos.
Não é.
Dinheiro público pertence à sociedade.
É dinheiro que deveria financiar escolas, hospitais, estradas, segurança, saneamento, assistência social, agricultura, infraestrutura, cultura e políticas públicas.
Quando uma obra é superfaturada, quando uma licitação é fraudada ou quando um recurso é desviado, a vítima não é simplesmente uma planilha contábil.
A vítima é o cidadão que espera atendimento em uma unidade de saúde. É a criança que precisa de uma escola adequada. É o trabalhador que enfrenta uma estrada destruída. É a família que espera por saneamento. É o agricultor que necessita de apoio para produzir.
Por isso, discutir corrupção não deveria ser apenas discutir números.
É discutir vidas.
O ELEITOR NÃO PODE VENDER O PRÓPRIO FUTURO
Chegamos ao ponto mais delicado desta reportagem.
Existe uma responsabilidade que não pertence somente aos políticos.
Ela também pertence ao eleitor.
O voto é secreto. É pessoal. É livre.
Não deve ser vendido por dinheiro, cesta básica, combustível, promessa de emprego, material de construção, favores pessoais ou qualquer outra vantagem.
Quando alguém vende o voto, pode receber uma vantagem imediata, mas entrega a outra pessoa o poder de decidir sobre milhões de reais durante anos.
Uma pequena vantagem hoje pode ter consequências muito maiores amanhã.
O eleitor precisa abandonar a ideia de que política é apenas uma troca de favores.
Política deveria significar representação, fiscalização, responsabilidade, planejamento e compromisso com o interesse público.
NÃO BASTA O CANDIDATO SER POPULAR
Nas eleições, existe uma tendência de transformar política em concurso de popularidade.
Número de seguidores não comprova capacidade administrativa.
Vídeo bonito não comprova integridade.
Discurso religioso não comprova compromisso público.
Carisma não substitui análise do histórico.
Família tradicional na política não significa automaticamente capacidade.
Dinheiro para campanha não significa compromisso com o cidadão.
O eleitor precisa olhar além da propaganda.
É necessário pesquisar quem é o candidato, o que já fez, quais cargos ocupou, como administrou recursos públicos, quais processos existem, quais condenações existem, quais investigações estão em andamento e quais são suas propostas.
E, principalmente, é preciso verificar essas informações em fontes oficiais.
A INTERNET TAMBÉM PODE SER UMA ARMADILHA
Nas Eleições 2026, a desinformação pode ser tão perigosa quanto a corrupção.
Um vídeo de poucos segundos pode destruir reputações.
Uma montagem pode transformar uma investigação em condenação.
Uma notícia falsa pode transformar um condenado em “inocente” ou um investigado em “criminoso”.
Por isso, o eleitor precisa desconfiar tanto da propaganda política quanto das acusações sem fonte.
O caminho é consultar o DivulgaCandContas do Tribunal Superior Eleitoral, onde podem ser encontrados dados sobre candidaturas, bens declarados, propostas, prestações de contas e informações eleitorais.
Não vote apenas pelo que alguém diz sobre o candidato. Procure os documentos.
A DIFERENÇA ENTRE INVESTIGADO, DENUNCIADO E CONDENADO
Essa diferença precisa entrar definitivamente na cultura política brasileira.
Investigado é aquele contra quem existem apurações em andamento.
Denunciado é aquele contra quem o Ministério Público apresentou acusação formal, cuja situação processual deve ser verificada conforme o caso.
Réu é aquele contra quem a Justiça recebeu uma denúncia e instaurou ação penal.
Condenado é aquele contra quem houve decisão judicial condenatória, que pode ou não estar definitiva dependendo da existência de recursos.
Condenação definitiva possui significado jurídico diferente de uma acusação ou investigação.
O jornalismo sério precisa respeitar essas diferenças.
E o eleitor também.
ELEIÇÃO NÃO DEVE SER TORCIDA DE FUTEBOL
Um dos problemas da política brasileira é transformar partidos em times.
Quando o adversário é investigado, alguns comemoram.
Quando o próprio grupo é investigado, alguns defendem.
Quando um adversário é condenado, exigem punição.
Quando alguém do próprio grupo é condenado, procuram justificativas.
Essa lógica destrói a capacidade de fiscalização da sociedade.
Corrupção não possui partido.
Desvio de dinheiro público não possui ideologia.
Fraude em licitação não é de direita nem de esquerda.
Propina não pertence a uma legenda.
O dinheiro público tem uma única origem:
O cidadão.
O QUE O ELEITOR DEVE FAZER ANTES DE DIGITAR O NÚMERO NA URNA?
Pesquisar.
Comparar.
Questionar.
Consultar fontes oficiais.
Verificar o histórico.
Ler propostas.
Analisar patrimônio declarado.
Observar prestação de contas.
Pesquisar processos e decisões.
Identificar alianças políticas.
Conhecer o partido.
Avaliar quem financia a campanha dentro das regras eleitorais.
Observar a coerência entre discurso e prática.
E, sobretudo, não trocar o voto por vantagem pessoal.
Não existe voto pequeno.
Cada voto participa da formação dos poderes que administrarão recursos públicos e tomarão decisões que afetarão milhões de brasileiros.
A BAHIA PRECISA DE UMA NOVA CULTURA POLÍTICA
A Bahia não precisa apenas de novos nomes.
Precisa de eleitores mais atentos.
Precisa de cidadãos que cobrem prestação de contas.
Precisa de imprensa livre.
Precisa de instituições fiscalizadoras independentes.
Precisa de partidos responsáveis.
Precisa de políticos que compreendam que mandato não é propriedade particular.
E precisa de uma população que não aceite ser utilizada apenas durante o período eleitoral.
O cidadão não deve ser lembrado apenas quando chega a eleição.
Depois da eleição, começa a verdadeira fiscalização.
O eleitor deve acompanhar o mandato, cobrar promessas, questionar gastos, participar das audiências públicas, consultar portais da transparência e denunciar irregularidades aos órgãos competentes.
A RESPONSABILIDADE É DE TODOS
Não é correto colocar toda a culpa na classe política.
A política é formada também pela sociedade.
Quando o cidadão troca o voto por vantagem, quando aceita irregularidade porque beneficia seu grupo, quando compartilha notícia falsa porque ataca seu adversário ou quando defende político condenado simplesmente porque pertence ao seu partido, ele ajuda a alimentar o mesmo sistema que depois critica.
A mudança política começa também na consciência do eleitor.
Não existe democracia forte com cidadão indiferente.
Não existe fiscalização eficiente com população silenciosa.
Não existe representação verdadeiramente responsável quando o voto é tratado como mercadoria.
UMA REFLEXÃO PARA AS ELEIÇÕES DE 2026
As histórias apresentadas nesta reportagem são diferentes entre si.
Algumas envolvem condenações.
Outras envolvem denúncias.
Outras são investigações em andamento.
Existem ainda situações administrativas e eleitorais que não podem ser confundidas com crimes.
Essa diferença é fundamental.
Mas existe um ponto em comum:
Todas demonstram a importância da fiscalização permanente sobre aqueles que ocupam ou pretendem ocupar posições de poder.
O eleitor não precisa escolher seu candidato baseado no medo.
Não precisa escolher baseado em pressão.
Não precisa escolher baseado em amizade.
Não precisa escolher porque recebeu um favor.
Não precisa escolher porque alguém mandou.
Precisa escolher de acordo com sua própria consciência, depois de buscar informações confiáveis.
Essa é a essência do voto livre.
MENSAGEM FINAL DO JORNALISTA JOSENILSON ALMEIDA
A política não deveria ser um lugar onde o cidadão entra apenas para pedir alguma coisa.
Deveria ser o espaço onde a sociedade escolhe pessoas para cuidar daquilo que pertence a todos.
Quando colocamos uma pessoa dentro de uma prefeitura, de uma assembleia legislativa, da Câmara dos Deputados, do Senado, de um governo estadual ou da Presidência da República, estamos entregando a ela uma parcela da nossa confiança.
Essa confiança não pode ser entregue de olhos fechados.
O político passa.
O mandato passa.
A eleição passa.
Mas as consequências das escolhas podem permanecer por muitos anos.
Por isso, neste ano eleitoral, antes de perguntar “o que esse candidato pode fazer por mim?”, talvez seja necessário perguntar:
“O que essa pessoa fez quando teve poder?”
“Como tratou o dinheiro público?”
“Respeitou as instituições?”
“Prestou contas?”
“Cumpriu o que prometeu?”
“Possui preparo para exercer o cargo?”
“Seu discurso corresponde às suas atitudes?”
E, principalmente:
“Estou escolhendo livremente ou estou sendo comprado, pressionado ou manipulado?”
Que o eleitor baiano não entregue seu voto por uma promessa passageira.
Que não entregue sua consciência por um benefício momentâneo.
Que não defenda irregularidades apenas porque o envolvido pertence ao seu grupo político.
Que não transforme política em torcida.
O voto é uma procuração dada pelo cidadão.
E procuração, quando envolve o dinheiro e o futuro de milhões de pessoas, precisa ser entregue com responsabilidade.
Não existe voto certo imposto por outra pessoa. Existe voto livre, consciente e responsável, construído a partir de informação, análise e consciência.
A Bahia pertence aos baianos.
O dinheiro público pertence ao povo.
E o poder, em uma democracia, pertence ao cidadão.
Que as Eleições 2026 sejam não apenas uma disputa por cargos, mas uma oportunidade para a sociedade amadurecer politicamente, fiscalizar mais, pesquisar mais e exigir mais de quem pretende representá-la.
Porque uma sociedade que aprende a fiscalizar seus representantes começa também a construir uma política diferente.
Josenilson Almeida
Jornalista - JN Noticias
Feira de Santana-Bahia-Brasil
FONTES E DOCUMENTOS CONSULTADOS
Ministério Público Federal — Bahia: decisão do TRE-BA sobre o registro de candidatura de Binho Galinha e informações sobre a Operação El Patrón.
Polícia Federal: 10ª fase da Operação Overclean e investigação de contratos públicos superiores a R$ 80 milhões.
Polícia Federal e CGU: Operação Robótica, em Serrinha, envolvendo contrato de R$ 8,8 milhões e estimativa de R$ 3,4 milhões em superfaturamento.
Polícia Federal e CGU: Operação Severus, em Gongogi e outros municípios baianos.
Superior Tribunal de Justiça: desdobramentos da Operação Faroeste.
Ministério Público Federal: denúncia contra o prefeito e o vice-prefeito de Érico Cardoso por suposta coação eleitoral.
Supremo Tribunal Federal: cadastro processual do Inquérito 5050, que registra Eduardo Mendonça Sodré Martins entre os investigados; a consulta não indica Jerônimo Rodrigues como investigado nesse inquérito.
Tribunal Regional Eleitoral/Ministério Público Eleitoral: representação envolvendo Jerônimo Rodrigues, Rui Costa e Jaques Wagner por suposta propaganda eleitoral antecipada.
TCE-BA e cobertura documental do caso dos respiradores: auditoria sobre as contas do Consórcio Nordeste em 2020, sob responsabilidade de Rui Costa, com recomendação de rejeição ainda sujeita à tramitação.
Procuradoria-Geral da República / cobertura do caso: pedido de retorno ao STF da investigação sobre os respiradores adquiridos pelo Consórcio Nordeste por R$ 48,7 milhões e não entregues.
Receita Federal/documentação divulgada pela imprensa: pagamentos de aproximadamente R$ 12 milhões do Banco Master à empresa ligada a Otto Alencar Filho.
Superior Tribunal de Justiça: decisão envolvendo aproximadamente R$ 40,2 milhões em emendas parlamentares de Otto Alencar Filho.
Bahia Notícias: posicionamento de Otto Alencar sobre sua relação com o advogado Ciro Soares e negativa de contato com Daniel Vorcaro.
JN Notícias — Feira de Santana, Bahia.
Jornalismo responsável não condena sem sentença, não absolve sem provas e não transforma investigação em espetáculo. Apura, contextualiza, confronta versões, acompanha os processos e entrega ao cidadão os elementos para formar sua própria consciência.
